Muita gente diz que o governo Bolsonaro não é fascista. Que os milhões de eleitores de Bolsonaro não são, nem nunca foram fascistas. Aliás, nem poderiam ser, pois sequer sabem o que é fascismo.

Os eleitores de Bolsonaro só queriam um governo honesto e a melhora da segurança pública no país. As bravatas e ameaças de Bolsonaro eram jogo de cena de campanha. Ele não seria tão radical assim.

Também ouço que a comparação do governo Bolsonaro com os governos fascistas paradigmáticos (o nazifascismo de Hitler, por exemplo) seria uma campanha de difamação sem base na realidade. Afinal, Bolsonaro não persegue judeus, não usa suástica, nem criou campos de concentração. É tudo marketing negativo da oposição.

Propositadamente ou não, ao imitar os discursos de Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, sobre a cultura – inclusive reproduzindo o cenário, o penteado, o modo de falar e o conteúdo do ideário nazista sobre o assunto -, a loucura destemperada de Roberto Alvim acabou revelando a face que o governo Bolsonaro tenta escamotear por detrás de sua burrice aparentemente errática.

Há, sim, inúmeros elementos do ideário nazifascista no populismo vulgar e miliciano de Jair Bolsonaro. Roberto Alvim foi nomeado secretário da cultura antes de Regina Duarte justamente por pensar como pensa.

A coisa mais grave sobre Jair Bolsonaro é que ele realmente acredita no ódio, na intolerância e nas barbaridades que diz.

Ademais, o fato de milhões de eleitores do Bolsonaro desconhecerem conceitualmente o que é o fascismo não livra a cara da cumplicidade de ninguém. Essas pessoas votaram e apoiam fanaticamente um projeto de poder com características fascistas. Admitiram a barbárie anticivilizatória como se chupassem um picolé.

O fato é que, para estes milhões de brasileiros, a ideologia fascista funciona justamente porque age através do desconhecimento. A adesão a narrativas e interpretações ideológicas da realidade é mais eficiente quando os atores sociais ignoram conscientemente os valores subjacentes à visão de mundo que adotaram. É na ignorância que a força da ideologia é mais eficaz. A força do ethos vem da adesão acrítica. Milhões de alemães apoiaram Hitler porque aspiravam uma Alemanha melhor e livre de mazelas.

Portanto, o fato das pessoas acharem que só queriam um país mais honesto e com menos assaltos não as exime de aderir e colocar no poder um projeto de poder fascista. Não as exime de aceitar uma solução totalitária e mortífera como solução para problemas legítimos. Apenas assevera sua cumplicidade.

E quanto à afirmação de que o governo Bolsonaro não é fascista de verdade? Bem, em termos históricos, não existe um modelo político e ideológico ideal de fascismo.

O fascismo europeu dos anos 1930 (Hitler, Mussolini, Franco) tornou-se icônico pela extensão da tragédia humana que provocou. Mas, ao longo do tempo, surgiram inúmeras variações sobre esse modelo. Pra ser fascismo, não precisa ser idêntico ao nazifascismo de Hitler. Isso é algo primário. Quem não consegue entender isto, deve buscar informações históricas.

No entanto, existem características sóciopolíticas e simbólicas que são traços comuns da ideologia fascista. São elas:

1) negação das liberdades individuais em nome dos interesses superiores da pátria;

2) papel político central dum líder forte, populista e autoritário;

3) moralismo, defesa dos valores familiares tradicionais e conservadorismo dos costumes;

4) nacionalismo exacerbado (patriotismo, adoração dos símbolos nacionais);

5) militarismo e militarização da vida social;

6) louvação da violência e da solução de conflitos pelo extermínio, físico ou político, dos adversários;

7) negação da democracia liberal clássica como corrupta e fracassada;

8. criação no imaginário social dum inimigo demoníaco , que passa a ser responsável por todos os males da sociedade (judeus, comunistas, imigrantes, negros, “a esquerda”, “o petismo”, etc);

9) Crença imaginária, acima de qualquer discussão, de que o extermínio desse inimigo trará a solução dos problemas;

10) negação do conhecimento, da inteligência e da produção intelectual acadêmica;

11) adesão à irracionalidade, à crenças irreais e fanáticas;

12) defesa da ação e da violência, ao invés do pensamento reflexivo;

13) idealização de algum período histórico do passado, no qual supostamente houve ordem, respeito e progresso do espírito nacional e do país, que deve ser revivido (no caso Bolsonaro, a ditadura militar de 1964);

14) associação do modelo fascista à valores e ideias religiosas, sendo a figura do líder relacionada de alguma forma a tais valores;

15) recusa ao debate intelectual;

16) adesão à slogans simplistas e simbologias que promovam o sentimento de pertencimento do indivíduo a uma grande e intolerante maioria social;

17) defesa sem disfarce da morte dos mais fracos, do poder dos mais fortes e recusa do conceito de justiça social como “perigo comunista”;

18) negação do outro enquanto alteridade; valorização dos interesses “coletivos da pátria”;

19) pregação radical da defesa da ordem, harmonia e do silenciamento dos conflitos sociais;

20) comunicação direta do líder fascista com a população, sem intermediação institucional.

Para discutir se o governo atual tem ou não características fascistas, basta procurar identificar algumas destas características nele. Eu reconheço todas elas. Sem exceção.

Quem não consegue reconhecer, talvez esteja cego por conta da identificação com estes mesmos valores ideológicos.

Pra encerrar: a ideologia fascista promove uma adesão política irracional. Ela nega e impede a discussão de ideias e valores. Se o outro não pensa como eu, ele automaticamente se torna uma ameaça, um “inimigo” (judeu, cigano, negro, mexicano, imigrante, esquerdista, petralha, etc). Por isso é tão difícil discutir racionalmente com um bolsonarista.

Por essas e outra razões, o teatrólogo alemão Bertold Brecht disse que, com o fascismo, não se dialoga. É preciso combater o fascismo.

Texto de Manoel Olavo Manoel Teixeira, médico psiquiatra e professor na Faculdade de Medicina da UFRJ