Por Spacca
Quando morre um humorista, mesmo aposentado ou sumido, é chavão dizer que “o Brasil ficou mais triste”.

Nani Lucas não apenas estava ativíssimo, como era um persistente praticante do “humor engraçado”.

A redundância se explica. Quase todo o humor profissional hoje é ofensa ou propaganda. É chato. Grandes jornais — pelos padrões de hoje — perderam a capacidade de distinguir charge de meros panfletos e ofensas ilustradas.

Nani sabia fazer charge e cartum sem jamais dispensar o “solavanco mental” da piada, a “conexão desconcertante de duas idéias disparatadas que logo revelam um sentido inusitado”, levando ao riso e/ou à compreensão.

Nani já está fazendo falta agora. Oxalá tenha continuadores. Nani e Ota Assunção**, duas porradas em 15 dias, não é mole não.

Perfil*
O cartunista Nani, criador da tira “Vereda Tropical”, morreu nesta sexta-feira (8/10), em Belo Horizonte. Aos 70 anos, ele foi vítima da Covid-19, segundo informações da família. Nani deixa dois filhos, Juliano e Danilo, uma neta, a Manuela, e a mulher, Inez.

Ernani Diniz Lucas nasceu em 27 de fevereiro de 1951, em Esmeraldas, cidade pequena perto de Belo Horizonte.

Começou sua carreira na capital mineira, em 1971, publicando charges em “O Diário”. Seu humor ferino e debochado chamou a atenção de um editor que o convidou para vir para o Rio de Janeiro para trabalhar no “O Jornal”.

Nani já era apaixonado pela cidade. Sonhava vir para o Rio e trabalhar em “O Pasquim”, jornal irônico e debochado, onde seus ídolos publicavam seus desenhos.

Ao chegar ao Rio, em 1973, conheceu Henfil. Cartunista e mineiro como ele, Henfil o mandou ir para a redação do “O Pasquim” e colar no Jaguar. “Jaguar sabe tudo”, disse Henfil.

A partir daí, ele chegava diariamente com 30, 40 cartuns, na redação do “O Pasquim”. Jaguar, já de saco cheio, disse: “Ô, Nani, pelo amor de Deus, eu não tenho como publicar tudo isso, são todos bons, senão vou publicar só os teus cartuns e não publico mais nada no jornal. Por que você não vai tomar umas cachaças?”

Nani seguiu os conselhos do Jaguar e virou parceiro constante dos jornalistas, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e do próprio Jaguar, entre outros, pelos botecos da cidade.

Em 1973, junto com seis outros artistas, criou “O Pingente”, tabloide que teve vida curta.

No Rio, trabalhou no “Jornal dos Sports”, substituindo Henfil, que foi para os Estados Unidos para tratar da hemofilia.

Foi também chargista do “Jornal da Globo”, “Última Hora”, “Diário de Notícias”, “Tribuna da Imprensa”, “Cartoon” e da edição brasileira da revista “Mad”.

* parte do perfil escrita por Ediel Ribeiro, jornalista, cartunista e escritor
** o cartunista Otacílio Costa d’Assunção Barros, o Ota, conhecido por ter sido editor da revista “Mad”, morreu no último dia 24 de setembro, no Rio de Janeiro, aos 67 anos