Por Carlos Santiago*

Quero citar pessoas extraordinárias que movem o mundo e fazem a vida ficar leve e esperançosa. Não vou escrever sobre os ganhadores do Prêmio Nobel e nem de grandes ídolos do Cinema ou do Esporte. Não foram vencedores de concursos de beleza ou de campanhas eleitorais. Não possuem as riquezas iguais a de Bill Gates e de Jeff Bezos e não estão nas televisões, como Silvio Santos. Nunca cantaram uma música afinada e jamais tocaram piano clássico. Não descobriram a fórmula descrita por Albert Einstein ou escreveram um clássico da literatura. Não são santidades, mas poderiam residir no Céu, ao lado de Deus, por suas atitudes e crenças.
Elas não moram em mansões, vivem em áreas simples. Seus filhos não possuem carrões, nem estudam em escolas com intercâmbio internacional, a maioria usa um transporte velho, sujo, com tarifa cara e com horários atrasados. Poucas vivem de trabalho normatizado com férias, salários fixos, viagens para outras cidades. Não descansam nos períodos oficiais de folga e nem no tradicional de descanso religioso.
Convivi e convivo com inúmeras pessoas, mas essas são pessoas extremamente especiais. Ensinam, acreditam no trabalho lícito, promovem fraternidades, choram de alegria pela felicidade dos amigos, ainda botam fé nas autoridades públicas e religiosas, visitam os familiares mortos, brincam nas festas juninas e emprestam ou doam roupas e comidas aos seus próximos. Rezam o Pai Nosso e ainda suportam a violência estatal e dos grupos de criminosos organizados.

Lembro, por exemplo, do seu Waldir Pereira, um taberneiro que abastecia com pães e outras mercadorias o povo do bairro do Aleixo. Todo dia acordava bem cedinho, não tinha feriado na sua rotina. No seu comércio, quem possuía dinheiro comprava os pães, quem não tinha dinheiro levava também, depois pagava. Ele dava trabalho a jovens e velhos que arrumavam e vendiam produtos do seu comércio.

Recordo também da senhora Maria Teixeira, com 58 anos de idade e que cuida até hoje dos doentes. Técnica de enfermagem, nunca se negou a fazer aferição da pressão dos idosos da rua onde mora. No hospital onde trabalha ainda empurra macas e dá banho nos vulneráveis. Tem um filho que trabalha numa ambulância recolhendo corpos de pessoas falecidas para levar ao Instituto Médico Legal (IML).

Vem ainda à memória o seu Pedro Monteiro e o Paulo César. Aquele trabalha no serviço de coleta de lixos, toda noite sai de casa e corre todo período noturno colhendo sujeiras nas vias públicas. Durante o dia cuida do filho e da casa. E não deixa de, sistematicamente, ir ao templo de Deus para agradecer o trabalho e a família que tem. Este, é um catador de papelão. Vende o suor do seu trabalho na área comercial do Centro Histórico da cidade, e com seu “lucro” sustenta a família e sua mãe idosa diabética.

Há, ainda, a Mônica Miranda, uma babá que cuida de crianças. Todos os dias sai de sua casa às cinco horas da manhã para chegar ao local de trabalho às sete horas. Quando retorna ao local de moradia alugada, desenvolve resgate e adoção de cães e gatos que estão nas ruas. Outro herói anônimo, o Ramos Filho, é um borracheiro. Experiência de duas décadas, conhece todo tipo de pneu e atende a qualquer hora.

No mundo existem bilhões de pessoas extraordinárias que não possuem riquezas materiais, belezas físicas, títulos acadêmicos, glamour televisivo, mas estão em todos os tempos e lugares e em todas as formas de trabalho lícito, contribuindo com a coletividade. Pessoas que um dia saberão da sua força social e política, então o mundo poderá ser ainda melhor.

*O autor é sociólogo, analista político e advogado.