Por: Carlos Santiago

Num País onde a esperança desapareceu de muitos lares, observar aquela família e imaginar o seu futuro foi algo gratificante e reflexivo. Uma jovem conversava no idioma francês e o seu esposo se expressava em espanhol. O casal estava acompanhado do seu filho, uma criança que não tinha mais que quatro anos de idade, e se comunicava alegremente em língua portuguesa. Estavam numa lanchonete que servia tapioca e café por dois reais. Seus olhares eram de incertezas e de medo, mas cheios de expectativas com o futuro.
O menino é brasileiro, nasceu aqui. O homem e a mulher, não. Foram expulsos dos seus Países pela pobreza, pelo autoritarismo e pela desesperança. Fiquei imaginando os desafios de deixar sua Pátria, viver distante dos amigos, dos parentes e das manifestações culturais do povo. Quantos sonhos de prosperidade foram negados a essa família? Pensei! Saíram de seus Países em busca de dias melhores. Seu paradeiro: uma terra de colonização portuguesa, onde a população guarda ainda marcas sociais e históricas da exploração e da escravidão.

O casal não me é estranho. É conhecido da região comercial do Parque Dez. O rapaz trabalha numa frutaria próximo da minha casa. Recentemente, deixou de ser ajudante do local e, agora, é sócio do estabelecimento, embora continue fazendo o trabalho mais pesado. A moça trabalha num supermercado. Ela todos os dias, antes e depois do trabalho, leva e busca o filho na escola. Ao lado da mãe, o menino acena e aponta para tudo e para todos, como se a vida fosse uma grande diversão.

Continuei a imaginar a vida daquela criança brasileira, daqui há 30 anos. Fruto do amor e da união de culturas de um imigrante venezuelano com uma haitiana. No futuro, ele pode ser um grande comerciante, um líder político, um cientista de universidade, um músico talentoso, representante do Brasil numa olimpíada, um trabalhador brasileiro adorador dos cultos ou das missas de domingo. O Brasil foi e é construído também pelas culturas e pelos trabalhos dos imigrantes e de seus descendentes, a história mostra isso.

Hoje, quantos brasileiros filhos de imigrantes estão trabalhando e honrando o País, inclusive como membros das cúpulas dos Poderes da nossa República? Há 500 anos o Brasil recebe milhares de portugueses, de italianos, de poloneses, de franceses, de japoneses, de espanhóis, de libaneses e outros. A maioria é de trabalhador humilde, com família de pouca instrução acadêmica. Alguns de religião mulçumana, outros praticantes do catolicismo e do budismo. E até uma parcela pequena de pessoas sem crença religiosa.

Aquele brasileirinho que nasceu da ousadia dos pais, do encontro de emoções e da esperança de uma nova vida, poderá ter um futuro próspero, com oportunidades que seus genitores não tiveram. Uma vida de muito trabalho e de conquistas, como foram as vidas de outros imigrantes que aqui aportaram. Uma perspectiva de melhoria social que ainda não chegou aos povos indígenas e aos negros brasileiros, mas quem sabe esse menino de sangue de descendência indígena da Venezuela e de negro do Haiti tenha sensibilidade para entender melhor o Brasil e suas dívidas sociais.

Depois de observar e tentar imaginar o futuro daquela família, deixei o local desejando um bom dia a todos, levando comigo a esperança de que o Brasil ainda é uma terra de sonhos, de encontros de culturas e de emoções edificantes.

*O autor é sociólogo, analista político e advogado