por Guilherme Rabelo Fernandes

O Cabrião foi um periódico satírico publicado em São Paulo entre 1866 e 1867. Contou com os desenhos de Angelo Agostini, que satirizavam a monarquia e a ordem religiosa e social do Império, assim como um dos grandes eventos históricos da época: a Guerra do Paraguai.
A caricatura que fecha a sexta edição de O Cabrião ilustra a interação entre cavalheiros vestindo fraque em uma espécie de celebração. Um deles, de camisa meio aberta, mal consegue permanecer em pé e segura uma garrafa na mão esquerda. Outro aparece no plano inferior sentado segurando um copo, em posição de brinde. Ao fundo, os portões do festejo bem abertos. Uma cena alegre.

Porém, para nosso espanto, Angelo Agostini representa os cavalheiros na festividade acompanhados de esqueletos. Para complementar lê-se na legenda “O Cemitério da Consolação no dia de finados”, dando forma à intenção humorística do autor. A caricatura da festividade no dia de Finados criou polêmica à época e rendeu um processo para a revista. O episódio elucida o espírito de pilhéria e também a audácia de O Cabrião mantidos durante sua breve existência.O animado Dia de Finados – O Cabrião, número 6, novembro de 1866
O Cabrião foi fundado por Américo de Campos, Antônio Manoel dos Reis e Angelo Agostini e teve sua primeira edição lançada no segundo semestre de 1866. Nesta primeira edição, foram estabelecidos determinados padrões editoriais: oito páginas – sendo quatro para textos e as outras quatro para ilustrações. Enquanto Campos e Reis cuidavam da redação, Agostini utilizava seu traço para criar caricaturas que satirizavam políticos conservadores e os jesuítas, grupos que foram alvos constantes do periódico.

A capa da primeira edição estampou o mascote que dá título à publicação, Cabrião. Com suas barbas e cabelos longos, além do sorriso transparecendo o espírito gozador, o Cabrião cumprimenta o público. O nome é um aportuguesamento de Cabrion, personagem do romance Os Mistérios de Paris (1842), do francês Eugène Sue. Na obra, ele é um pintor que passa uma temporada na casa do casal Pipelet e os importuna, ao ponto de tornar a vida deles um estorvo. Logo, Cabrião é um indivíduo maçante, que importuna. Importunar era o principal objetivo de Campos, Reis e Agostini e, a julgar pelo episódio do Dia de Finados, eles parecem tê-lo alcançado.

Embora tenha sido um sucesso, o Cabrião teve vida curta. Terminou em setembro de 1867, pela alegação de dificuldades financeiras devido ao não pagamento das assinaturas. Totalizando 51 números, o legado do periódico foi firmar alicerces para publicações posteriores com a mesma proposta, constituindo assim, um marco para a imprensa paulista.
Todos os números de O Cabrião estão disponíveis na BBM Digital.
OS PRECURSORES DA CARICATURA

Ao contrário da crítica feita apenas por meio do texto, restrita aos alfabetizados, a crítica por meio do discurso verbovisual é amplamente assimilada pela população. Foi o que perceberam alguns artistas, como o britânico James Gillray (1756-1815) e o francês Honoré-Victorien Daumier (1808-1879). Aproveitaram essa forma visual de sátira para inserir no debate sociopolítico camadas sociais até então relegadas.

Gillray, em 1805, fez caricaturas contra Napoleão que rapidamente se popularizaram. Na França, um trabalho de destaque é o de Honoré-Victorien Daumier. Este viria a colaborar no semanário francês La caricature (1830), produzindo ao lado dos ilustradores Paul Gavarni, Jean Jacques Grandville e Gustave Doré. Alguns anos mais tarde, surgiu a revista inglesa Punch (1841). Muito influenciada pelos franceses, além de lançar suas lentes para a política, Punch explorou o humor através de quadros que satirizavam o cotidiano, um de seus principais atrativos.

A caricatura atravessa o Atlântico e chega no Brasil por intermédio do traço do artista Manuel Araújo Porto Alegre. Veiculada no Jornal do Commercio em 1837, a caricatura retrata uma cena de suborno, segundo Ana Luiza Martins.

A autora também pontua que essa introdução bem sucedida motivou a chegada de alguns artistas europeus no país para realizarem seus trabalhos satíricos. Alguns nomes foram Rafael Bordalo Pinheiro e Henrique Fleuiss. O primeiro foi um artista português, crítico mordaz do monarca Dom Pedro II, tendo em seu álbum Apontamentos de Rafael Bordalo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb pela Europa (1872) um exemplo do tipo da sátira realizada no período. Já o segundo foi um desenhista alemão, fundador da Semana Ilustrada (1861-1875) e, ao contrário do português, apoiador do regime monárquico. Também houve espaço para a vinda do italiano Angelo Agostini, essencial para o fortalecimento da imprensa humorística nacional e o aparecimento de O Cabrião.
O CARICATURISTA DE “O CABRIÃO”: ANGELO AGOSTINI

Nascido na primeira metade do século XIX em Piemonte, região norte da Itália, Angelo Agostini termina seus estudos de desenho em Paris em 1858 e dois anos depois muda-se para São Paulo, onde funda o semanário Diabo Coxo (1864-1865). Esse periódico teve uma existência breve e pressagiou o trabalho que seria visto poucos anos depois em O Cabrião.

Já em 1876, morando no Rio de Janeiro, Agostini funda a Revista Illustrada (1876-1898). Nesta publicação houve uma posição clara em defesa do abolicionismo, onde vemos várias caricaturas que condenavam a escravidão.

Também defendeu, no período, posições como o liberalismo, republicanismo e o Estado laico. As críticas do artista dirigidas a Dom Pedro II foram frequentes, tendo como principal alvo o poder moderador. Por outro lado, o político José Bonifácio, liberal, foi um dos defendidos pelo artista. O liberalismo, para Agostini, seria um caminho para que o Brasil alcançasse o mesmo estágio civilizatório das nações europeias.
A GUERRA DO PARAGUAI EM “O CABRIÃO”

A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi um conflito que envolveu Paraguai contra Uruguai, Argentina e Brasil, união que ficou conhecida como Tríplice Aliança. Estima-se que os países da Tríplice Aliança perderam aproximadamente 120 mil vítimas, enquanto o número de vítimas paraguaias atingiu cerca de 300 mil.

Se no começo do conflito havia adesão da população, no último ano da guerra a situação era oposta. No livro As Barbas do Imperador (1999), a historiadora Lilia Moritz Schwarcz conta que o ufanismo motivou o alistamento, ao passo que a figura de Dom Pedro II também contribuiu pela ‘bravura’ que ele refletia – o período de início da Guerra do Paraguai é de alta popularidade do monarca.

Schwarcz assinala que o período pós-1866 começou pela redução de voluntários brasileiros, o que motivou

o governo a intensificar o recrutamento obrigatório. Os ânimos se acirram e os antigos elogios se transformam, mais e mais, em críticas ferozes como as do Correio Mercantil que, em 9 de novembro de 1866, classificava a guerra de “o açougue do Paraguai”.

(SCHWARCZ, 1999, p. 468).
O recrutamento compulsório para a Guerra do Paraguai foi satirizado no periódico
A Guerra do Paraguai foi um assunto corrente em O Cabrião. Foi abordada 55 vezes em caricaturas e desenhos do periódico, segundo Délio Freire dos Santos. Ocupou-se em mais uma ocasião sobre a questão do recrutamento compulsório. Em seu décimo terceiro número, há uma caricatura em que vemos um homem sendo buscado por um subdelegado, enquanto seu assistente segura os grilhões para prendê-lo. A esposa levanta as mãos para o céu e a criança no berço parece não acreditar, assim como o leitor, na extravagância da cena.

No mesmo número, Agostini traça uma caricatura cujo cenário é uma forjaria. Vemos que os ferreiros fabricam braços, esses, por sua vez, aparecem em um varal no canto esquerdo da imagem. O mascote Cabrião questiona a finalidade deles. A resposta é: são para a guerra. Cabrião, de modo implacável, afirma que o Brasil não precisava de braços para a guerra, mas de uma boa cabeça. A crítica destina-se a Dom Pedro II, figura que ocupa o centro da caricatura e empunha um martelo no ar. A imprudente decisão do monarca em continuar enviando forças brasileiras ia contra os anseios populares e também da imprensa local, corroborando a ideia de que Dom Pedro II era o principal responsável pelo conflito ter se tornado o ‘açougue do Paraguai’.Dom Pedro II no número 13 de O Cabrião
Encontramos também, no número 49, mais uma referência ao combate entre os sul-americanos. No primeiro quadro da caricatura vemos algumas barracas armadas na floresta. Alguns indivíduos aparecem em primeiro plano, inclusive um deles segura uma arma de fogo em uma das mãos. O ambiente e os personagens permitem ao leitor inferir que trata-se de um acampamento militar. A legenda corrobora o que vemos: “Em razão do recrutamento ainda veremos os homens metidos no mato”.

Esse primeiro quadro é o que teóricos do humor costumam chamar de setup. O setup é a preparação, momento de suspensão e criação de expectativa do público. Para completar a piada, o fundamento que gera o humor é denominado punch. Este, por sua vez, vale-se dos variados mecanismos humorísticos – como exagero, justaposição, incongruência, entre outros – para quebrar a expectativa e causar surpresa no leitor.

O punch na caricatura, idealizado brilhantemente por Agostini, são mamíferos, répteis e aves de nossa fauna ocupando o espaço urbano. Além da questão gráfica, o segundo quadro é complementado pela legenda “E os bichos habitando a cidade”. O artista utiliza o mecanismo da inversão para conduzir o leitor ao riso, mas também o provoca ao mostrar o absurdo de um conflito como a Guerra do Paraguai.Na edição de 15 de setembro de 1867, humanos estão no campo e os animais ocupam a cidade
Referências

MARTINS, Ana Luiza. Imprensa em tempos de Império. In: MARTINS, Ana Luiza e LUCA, Tania Regina de (Org). História da imprensa no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2012.

ROCHA, Danilo Aparecido Champan; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. Cabrião: o debate político no Segundo Reinado por meio das caricaturas de Angelo Agostini. Fronteiras, [S.l.], v. 20, n. 35, p. 46 – 67, ago. 2018. Disponível em: . Acesso em: 13 out. 2020.

SANTOS, Délio Freire dos. Primórdios da imprensa caricata paulistana: O Cabrião. In: CABRIÃO: semanário humorístico, 1866-1867. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo (SP): Imprensa Oficial do Estado; Editora da Universidade Estadual Paulista, 2000. lxvi, 407 p.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. A Guerra do Paraguai: o “voluntário número um”. In:_____. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 623 p.

Guilherme Rabelo Fernandes é graduando em Letras pela FFLCH-USP.