Por Carlos Drummond de Andrade

 Dai-me, Senhor, assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado escuta alguém?
Adianta falar aos namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
Que eles não saibam, eles que transformam a sabedoria universal em divino
esquecimento?

A gente sempre se amando

A gente sempre se amando

Nem vê o tempo passar.

O amor vai-nos ensinando

Que é sempre tempo de amar.

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

E nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

E com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

É semeado no vento,

Na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo

Bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

Não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

E da morte vencedor,

Por mais que o matem (e matam)

A cada instante de amor.

Quero

Quero que todos os dias do ano

Todos os dias da vida

De meia em meia hora

De 5 em 5 minutos

Me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,

Creio, no momento, que sou amado.

No momento anterior

E no seguinte,

Como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão

Que me amas que me amas que me amas.

Do contrário evapora-se a amação

Pois ao dizer: Eu te amo,

Desmentes

Apagas

Teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.

Não exijo senão isto,

Isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra

Nem sei de outra maneira a não ser esta

De reconhecer o dom amoroso,

A perfeita maneira de saber-se amado:

Amor na raiz da palavra

E na sua emissão,

Amor

Saltando da língua nacional,

Amor

Feito som

Vibração espacial.

No momento em que não me dizes:

Eu te amo,

Inexoravelmente sei

Que deixaste de amar-me

Que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido

Eu te amo amo amo amo amo amo amo,

Verdade fulminante que acabas de desentranhar,

Eu me precipito no caos,

Essa coleção de objetos de não-amor.

O dia dos namorados

O dia dos Namorados

Para mim é todo dia

Não tenho dias marcados

Para te amar noite e dia.

O dia 12 de junho,

Como qualquer outro, diz

( e disso dou testemunho)

Que contigo sou feliz.

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O Portal O Ralho é composto por um grupo de artistas digitais que utiliza a política como fonte de inspiração. Dado o tamanho da bizarrice a política é humor próprio e porque é, em si, uma coisa engraçada. O humor, ao contrário, é uma coisa muito séria. Provo: a política é toda feita de dribles à imprensa, de desmentidos impossíveis, de promessas jamais cumpridas, de ilusão, enfim, enquanto o humor não engana ninguém: ou é engraçado ou não é, está ali no papel em exibição pública, nu e cru. Seríssimo. Por isso, os políticos em geral são bons humoristas enquanto os humoristas sempre foram péssimos políticos. Então o Ralho traz a visão contestadora, humorística e diária da realidade…

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