Estado de sítio

Aldisio Filgueiras*

Fomos falsos em alguma coisa gestos palavras renúncia. Esquecemos outubro a roupa nova do século. Talvez que não tiramos a camisa no inverno e a vida gripou nas alamedas do tempo.

Mas compramos sapatos automóveis. Deitamos com mulheres limpas vulcânicas. Por isso não vimos a cidade tomada pelos flancos e a corda do horizonte fechar-se em nossos pescoços.

Com os olhos eretos trocamos o sentimento do mundo pela rua cheia de nádegas e seios. Há cartazes de preços móveis em nossas calças novas.

Temos um preço. Somos transmissíveis.

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Ah! os pássaros suicidaram-se nos ninhos com medo das tempestades.

3

O militante com medo das feras guardou as armas e empunhou as armas e empunhou a língua como as mulheres velhas.

4

Compramos relógios trancamos as portas temos um suicídio na gaveta do móvel.

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Ninguém gritou o ventre do tempo cheio de hóstias anticoncepcionais contra a pluralidade dos séculos

6

Os escaravelhos tomaram a cidade e os namorados morreram surpresos nos bancos elétricos da praça. de repente, as abelhas aprenderam a fazer urânio com as flores envenenadas e os pássaros verdes ensinaram ao sol como chocar granadas.

Ninguém gritou o ventre do tempo cheio de hóstias anticoncepcionais contra a pluralidade dos séculos.

O poeta é o responsável pela humanidade. Mas o poeta tem cu e tem medo. O poeta tem conta no banco.

7

O poeta é o responsável pela humanidade. Mas o poeta tem medo: Deus espirrou tão forte sobre a rosa dos ventos que os pontos cardeais perderam as direções do futuro.

Estamos sós, diante do século.

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O poeta é o responsável pela humanidade, mas o poeta tem conta no banco. Os escaravelhos tomaram a cidade. Temos um preço. Venceram as tradições de comércio.

9

Estamos sós: não temos partido e precisamos de ordem.

Com os olhos eretos trocamos o sentimento do mundo pela rua cheia de nádegas e selos de qualidade. Há cartazes de preços móveis em nossas calças novas.

Fomos falsos em alguma coisa. Talvez que não tiramos a camisa no inverno e a vida gripou nas alamedas do tempo.

Com os olhos eretos trocamos. O sentimento do mundo. Pela rua cheia de nádegas e seios de silicone.Perdemos muito tempo na cama. Somos transmissíveis.

 

 

O ser da criança

do modo que vive

uma criança morre:

acreditando na lenda

Do cotidiano

a manhã lança

de metal e mistério

agreste espetou-se

nas pegadas do homem

Das nossas mulheres 1

as amazonas

não usam lança

nem são de mármore

prendem-se à vida

com esquisita tristeza

de mulheres simples

nunca foram eqüestres

Das nossas mulheres 2

mordo minha lágrimas

quando a menina

grávida se esconde

e tenho medo do mundo

Dos investidores na Amazônia

de noite é que os homens

investem seus capitais

tanto mais rápido

o lucro quanto mais

firme o braço

se apóia na forquilha

e certa a mira

da livre iniciativa

de noite as árvores

atiram pelas costas

 

 

*Aldisio  Gomes Filgueiras, poeta e compositor, nasceu em Manaus, no dia 29 de janeiro de 1947. Sua estréia literária aconteceu em 1968, com o livro de poemas Estado de sítio, que depois de editado, teve sua circulação proibida pela censura. Obra poética: Malária e outras canções malignas (Manaus, 1976); A República muda (Manaus, 1989); Manaus- as muitas cidades (1987-1993) (Manaus, 1994). A Dança dos fantasmas (Manaus, 2001), Nova subúrbios (Manaus. 2004).

 

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