A posse do escritor, poeta e filósofo Aílton Krenak marca a entrada do primeiro indígena na Academia Brasileira de Letras

Foi um momento histórico, destaca a jornalista Regina Zappa

“Estou aqui. Sou guarani, sou xavante, sou caiapó, sou ianomâmi, sou terena. Essa fala plural só foi possível porque atravessamos uma linha vermelha que indicava, no final dos anos da ditadura, a disposição do Estado brasileiro de ‘emancipar’ os indígenas”. Assim falou Krenak em seu discurso de posse na ABL, trazendo para a casa de Machado de Assis, mais de 500 anos de Brasil, mais de 300 povos indígenas e a diversidade das línguas faladas no Brasil.

“Venho para trazer línguas nativas do Brasil para um ambiente que faz a expansão da lusofonia. A ABL é portuguesa e eu trago para cá as línguas indígenas. Acho que isso faz uma diferença muito grande”, afirmou Krenak, que garantiu ao público da ABL: “Todo mundo que escreve livros com histórias incríveis, escutou essas histórias de alguém que não escreve livros”, referindo-se, certamente, à tradição oral dos povos indígenas que ele soube tão bem traduzir em seu discurso improvisado, não lido, como costuma ser nas cerimônias de posse na Academia.

O autor de “Ideias para adiar o fim do mundo” não se limitou a falar da escrita ou da palavra, ferramentas obrigatórias da casa. Atreveu-se a instruir seus companheiros de fardão e todo o público nas leis de convívio em sociedade. “Se nós não sabemos experimentar resiliência, devolver cura, devolver amabilidade, ajudar a reconstituir o tecido comunitário, nós estamos cooperando com a prática da predação” […] “Podemos achar que meritocracia é uma meta. Mas essa cultura que supõe que algumas pessoas têm mérito e outras não, é uma das ideias motoras da predação”.

Diante do encantamento com a simbologia contida no ingresso nos salões protocolares de uma instituição tradicional daquela figura indígena, altiva e serena, bandana na cabeça e fala de sabedoria milenar, não havia, porém, como esquecer o longo caminho de humilhações, extermínio, indignidade e resiliência que seu povo enfrentou para chegar até aqui.

Nosso criador e narrador de mundos recebeu de uma emocionada Fernanda Montenegro, agora sua colega, o colar de Imortal. Fernanda o beijou na testa e o abraçou, no encontro de duas personalidades que enobrecem o Brasil. Em seguida, recebeu a espada do acadêmico Arnaldo Niskier, (para surpresa de quem imaginou na hora quantos corpos indígenas não foram cortados pela espada desde o descobrimento), e o diploma de Antonio Carlos Secchin.

Sua colega Heloísa Teixeira, que fez o discurso de apresentação e mencionou a biblioteca Krenak com 150 horas de falas e seus mais de 15 livros publicados, conclamou-o a “chegar logo”, empunhando “histórias e sonhos”. “Crave nesse terreiro um raio de luz que traduza melhor esse mundo hoje tão desesperado”.

Com a presença de dois ministros de Estado – ministra da Cultura Margareth Menezes, e dos Direitos Humanos, Silvio Almeida -, da presidente da Funai Joenia Wapichana, Krenak, que foi eleito por 23 votos, assumiu a cadeira 5 do historiador José Murilo de Carvalho, e insistiu em ressaltar os “importantes exercícios de convivência, de comunhão e de constituir comunidades humanas para criar uma sociedade de cuidar uns dos outros, não mandar, nem predar uns aos outros.

Nunca se viu tanta gente em uma posse da Academia e os fardões verdes bordados em fios de ouro contrastavam com as flores e penas coloridas dos cocares, colares e enfeites de cabeça. Do lado de fora do Petit Trianon, onde acadêmicos discursavam, indígenas e amigos cantavam e dançavam ao som da música e do idioma dos povos originários.

Tudo foi diferente. O cardápio foi produzido pelo grupo Terra Come, de Belo Horizonte, com frutas diversas que incluíam pitaya, caqui, abacaxi e maracujá, uma sopa com receitas indígenas, de baroa e jenipapo, servida em pote de barro forrado com folhas de taioba, queijo e goiabada, chás e água, nenhuma bebida alcóolica. A festa seguia ainda com batata doce roxa envolta em argila quebrada na hora com pequenos martelos e pessoas produzindo na hora os potes de barro usados para servir a comida.

Nós, da plateia, testemunhamos mais um avanço crucial na História do Brasil. Reparação? Talvez. No começo do mês, o Estado brasileiro pediu desculpas aos indígenas Krenak e Guarani Kaiowá por perseguições na ditadura militar. Mas, como disse Krenak, “pedir perdão depois significa muito pouco no sentido da reparação. A real reparação é pela ação verdadeira que se deve aos povos originários”. O fato é que a posse de Krenak na Academia nos traz um sentimento de orgulho que poderemos compartilhar com nossos filhos e netos e desejar que nosso país não retroceda, ande para frente e reconheça a beleza de incluir todos os brasileiros no sonho de Darcy Ribeiro de criar aqui a civilização mais linda sobre a Terra. Só assim, conforme diz Krenak, poderemos adiar o fim do mundo.

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