Há os fascistas, os belicosos e os idiotas por natureza, mas influi em favor de Bolsonaro muito mais a desinformação

Por Paulo Henrique Arantes*

Lula entra no segundo turno com 6 milhões de votos à frente de Bolsonaro e com os prováveis apoios de Simone Tebet e do PDT de Ciro Gomes, a despeito da pouca probabilidade de uma manifestação clara em seu favor por parte do cearense. Em São Paulo, o deputado federal mais votado foi Guilherme Boulos e o estadual, Eduardo Suplicy. Haddad venceu na Capital e está no segundo turno (o Interior paulista anda da caminhonete turbinada, ou sonha em ter uma, e ouve sertanejo universitário, seja lá o que for isso).

É possível enxergar um cenário positivo para os democratas, mesmo com as bancadas numerosas eleitas pelo bolsonarismo. Lula sai na frente – e bem à frente – contra a máquina do Estado, usada descaradamente, e uma criminosa indústria de fake news que o TSE coíbe ainda timidamente.

As pesquisas são um caso à parte. A tendência é repudiá-las pelo subdimensionamento da extrema direita, mas vamos com calma. Um ponto e meio percentual a mais e Lula estaria eleito no primeiro turno – nesse quesito, o resultado ficou na margem de erro. Quanto ao desempenho de Bolsonaro, diretores dos institutos fizeram várias ressalvas sobre as projeções às vésperas das eleições, apontando os tais dos “votos envergonhados” e algo que parece mais provável: eleitores do capitão repudiam pesquisas e pesquisadores, e portanto muitas abordagens a bolsonaristas são descartadas.

A decepção dos democratas dá-se muito mais por uma falsa expectativa do que pelo resultado do primeiro turno em si. Vencer o presidente da República no primeiro turno exige mais do que denunciar um governo inepto, corrupto e fascistoide. Escrevemos aqui, em coluna passada, que Bolsonaro seria derrotado pelo que é o seu governo e a sua mentalidade doentia. E será.

Mas há toda uma estrutura de governo azeitada mediante benesses orçamentárias que rendem votos. É compra de voto, ou o Orçamento Secreto não favorece campanhas parlamentares? Bases eleitorais de deputados bolsonaristas estão abarrotadas de dinheiro.

Os democratas, liderados por Lula, venceram o primeiro turno amealhando apoios na sociedade civil, agregando trabalhadores, artistas, intelectuais, juristas, economistas e até empresários. A costura política desenvolvida pela campanha do petista está de parabéns.  Não se liquidou a fatura porque fazer o Poder mudar de mãos requer um pouco mais de trabalho. O segundo turno vai exigir sangue, suor e lágrimas.

A tal “pauta de costumes” tem seu peso, é claro, mas é simplismo argumentar que tantos brasileiros votam em Bolsonaro por identificarem-se em termos comportamentais com tamanha boçalidade. Há os fascistas, os belicosos e os idiotas por natureza, mas influi em favor de Bolsonaro muito mais a desinformação, via fake news, e o dinheiro, via Orçamento Secreto.

 

*Paulo Henrique Arantes

Jornalista, com mais de 30 anos de experiência nas áreas de política, justiça e saúde.

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