“Desviaram a atenção das esquerdas e dos institutos de pesquisa para o padre Kelmon, enquanto a boiada passava”, afirmou o jornalista Moisés Mendes

Por Moisés Mendes*

Desviaram a atenção das esquerdas e dos institutos de pesquisa para o padre Kelmon, enquanto a boiada passava.

Passaram por cima do que ainda chamavam de centro, pisotearam o PSDB, comeram o pasto do Novo e do velho e acomodaram-se no caminhão boiadeiro de Bolsonaro.

A polvadeira ainda está no ar, e tem gente distraída com a informação de que o padre seria um perigoso neointegralista.

Buscam algo que ofereça um lustro ao sujeito e nos coloque diante não de um farsante, mas de alguém com base, referências históricas e lastro ideológico.

Como se a extrema direita brasileira precisasse das luzes de ideologias. A alma de Plínio Salgado sabe que são outros os deuses, a tradição, a família e a propriedade de hoje em dia.

A aparição de padre Kelmon, a primeira figura do metaverso na política brasileira, porque ninguém sabe de onde saiu e como apareceu em debate da Globo, nos distraiu bem.

O que temos agora, no fim da distração, é um desafio que Lula, PT, esquerdas, Armínio Fraga, Caetano Veloso e Anitta terão de deslindar.

Não resolve nada tentar dizer hoje que havia indícios de que o bolsonarismo estava se naturalizando na classe média.

Ninguém disse tal coisa em voz alta, e se disse falou em grupo restrito do zap. Diziam, ao contrário, pelos sinais emitidos pelas pesquisas, que a classe média humanista dos anos 80 e 90 estava fazendo o caminho de volta.

Caímos todos os crédulos no conto da reconversão, com a notícia da possível perda de força da extrema direita.

Nem o mais otimista dos bolsonaristas contava com o que aconteceu. O eleitor escondido, ou encabulado ou mentiroso enganou a todos, enquanto as mágicas do padre nos tiravam o foco.

Estamos agora no impasse das falsas encruzilhadas. Corre-se ou não para o centro de André Esteves, que não fica bem no centro, mas na Faria Lima, e ao mesmo tempo para os braços dos evangélicos?

Há dúvidas sobre o que desfrutar do que sobrou do eleitorado progressista de Ciro, que parece ser quase nada. Quantos são os eleitores de Simone Tebet que topam apertar o 13?

O Congresso foi tomado pelo bolsonarismo. O Senado terá uma turma da pesada que nem o esquema dos senadores biônicos conseguiu para a ditadura. Zema é  Bolsonaro.

Não restaram nem vestígios dos restos de Katia Abreu, Luiz Henrique Mandetta, Álvaro Dias, Romero Jucá e Rodrigo Garcia, que também já abraçou Bolsonaro.

Juntam o que sobrou de Eduardo Leite no Rio Grande do Sul, para saber se é possível montar, com o apoio de parte do eleitorado petista mais flexível, um personagem inteiro capaz de enfrentar Onyx Lorenzoni no segundo turno.

Leite, que tentou passar a perna em João Doria, ameaçou ser o candidato de Kassab no PSD e fez manobras para tirar Simone Tebet da jogada, depende do PT não só para tentar um segundo mandato no governo gaúcho, mas para sobreviver politicamente.

É o último moicano a acreditar na terceira via. Repetiu várias vezes, depois de levar uma goleada de Onyx no primeiro turno, que se considera o único candidato do diálogo e do entendimento contra a polarização.

Ele mesmo só terá sobrevida se topar ser um Frankenstein de uma polarização híbrida, mesmo que boa parte das esquerdas gaúchas rejeite ser pai da criatura.

Guilherme Boulos disse no Roda Viva, na segunda-feira, que o Brasil ficou no domingo diante da naturalização da tragédia da pandemia.

“Há uma crosta de indiferença diante das mortes”, disse Boulos. É mais do que crosta. São as entranhas, as vísceras do Brasil que não se mostraram assim tão despudoradas nem em 2018.

É o cenário que temos depois da passagem meteórica de padre Kelmon por esse mundo.

A história da volta do integralismo nos consola, como se estivéssemos diante de uma grave ameaça.

E estamos apenas diante de um despiste. O fascismo precisa somente de um genocida e de ‘liberais’ paulistas, do centrão, de grileiros, pastores, garimpeiros, tios e tias negacionistas, racistas e homófobos.

Precisa apenas deles e de facções organizadas em torno da família. E de eleitores dispostos a mantê-los no poder.

Moisés Mendes*

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui